01 junho 2010

The End

Agora que o Cineclube acabou, ou lá o que é que acabou de acontecer, vamos explicar-vos de que é que isto se tratou:


p. 366
"As únicas salas de cinema que cumpriam uma função, disse Charly Cruz, eram as velhas, lembras-te? Aqueles cinemas enormes que quando se apagavam as luzes o nosso coração se encolhia. Aquelas salas, sim, eram os verdadeiros cinemas, o mais parecido com uma igreja, tectos altíssimos, grandes cortinas vermelho grená, colunas, corredores com velhas alcatifas gastas, palcos, lugares de plateia, balcão ou galinheiro, edifícios construídos nos anos em que o cinema ainda era uma experiência religiosa, quotidiana, porém religiosa, e que pouco a pouco foram demolidos para edificar bancos ou supermercados ou multicinemas. Hoje, dise Charly Cruz, apenas sobrevivem uns poucos, hoje todos os cinemas são multicinemas, com ecrãs pequenos, espaço reduzido, cadeiras muito cómodas. No espaço de uma velha sala de verdade cabem sete salas reduzidas de um multicinema. Ou dez. Ou quinze, depende. E já não há experiência abissal, não existe a vertigem antes do início de um filme, já ninguém se sente sozinho no interior de um multicinema. Depois, segundo Fate recordava, pôs-se a falar sobre o fim do sagrado.
O fim tinha começado nalgum lado, a Charly Cruz tanto lhe fazia, talvez nas igrejas, quando os padres abandonaram a missa em latim, ou nas famílias, quandos os pais abandonaram (aterrorizados, acredita em mim, brother) as mães. Rapidamente o fim do sagrado chegou ao cinema. Deitaram abaixo os grandes cinemas e construíram caixas imundas chamadas multicinemas, cinemas práticos, cinemas funcionais. As catedrais caíram sob a esfera de aço das equipas de demolição. Até que alguém inventou o vídeo. Um televisor não é o mesmo que um ecrã de cinema. A sala da tua casa não é a mesma coisa que uma velha plateia quase infinita. Mas, se observarmos com cuidado, é o que mais se parece com ela. Em primeiro lugar porque graças ao vídeo podemos ver um filme sozinhos. Fechamos as janelas de casa e ligamos a televisão. Metemos o vídeo e sentamo-nos num cadeirão. Primeiro requisito: estar sozinho. A casa pode ser grande ou pequena, mas se não houver mais ninguém em toda a casa, por mais pequena que seja, de alguma maneira fica maior. Segundo requisito: preparar o momento, isto é, alugar o filme, comprar a bebida que vamos beber, comprar o aperitivo que vamos comer, determinar a hora em que nos vamos sentar diante da televisão. Terceiro requisito: não responder ao telefone, ignorar a campainha da porta, estar disposto a passar uma hora e meia ou duas horas ou uma hora ou quarenta e cinco minutos na mais completa e rigorosa solidão. Quarto requisito: ter à mão o comando à distância para o caso de se querer ver a cena mais de uma vez. E é tudo. A partir desse momento tudo depende do filme e de nós. Se tudo correr bem, que nem sempre corre bem, uma pessoa está outra vez na presença do sagrado. Uma pessoa mete a cabeça no interior do seu próprio peito, abre os olhos e olha, sublinhou Charly Cruz."

2666, Roberto Bolaño

Até para o ano.

28 maio 2010

Última Sessão :: Terça - Feira :: 1 de Junho


City Lights (1931) - de Charles Chaplin

22 maio 2010

7ª Sessão | próxima terça : : 25 de Maio

Le Samoraï (1967) de Jean-Pierre Melville

10 maio 2010

08 maio 2010

6ª sessão :: O HOMEM DA CÂMARA DE FILMAR de Dziga Vertov

União Soviética . 68 min . IMDb

Terça, 11 de Maio | 18h30, sala 260 | Entrada Livre

25 abril 2010

INTO THE WILD, Sean Penn (2007)
EUA . 148 min . IMDb

terça 27 abril às 18h30 (em ponto) | sala 260 | entrada livre

«O Lado Selvagem», de Sean Penn, é a quarta e a sua melhor longa-metragem como realizador. Partindo da adaptação do best seller "Into the Wild", de John Krakauer, Penn realiza um dos mais belos filmes dos últimos anos. Um registo naturalista e existencialista que confronta as audiências com uma interpretação do significado da vida nos tempos correntes.

O livro e o filme inspiram-se na jornada fantástica que Christopher McCandless iniciou em 1992, prolongando-a por dois anos, onde rasgou a pé e à boleia o coração dos Estados Unidos. Christopher abandonou tudo em seu redor para partir à procura da felicidade longe da vertigem civilizacional. O livro provocou grande impacto em Penn, que adquiriu os direitos e estabeleceu uma estreita relação com a família McCandless, fundamentais para a melhor interpretação deste épico humano. Sendo que é baseado em factos verídicos, as convicções chegam até nós inalteradas e carregadas de idealismo.

Christopher (Emily Hirsh) decide caminhar para o lado selvagem, ele percorre a Terra sem animais de estimação, dinheiro ou telefones; ambiciona a liberdade dos lugares virgens da impressão humana. A sua única companhia é feita pelos personagens dos livros que carrega consigo. É um extremista viajante, um Thoreau dos anos 90. A sua casa é a estrada. Até então era um jovem pronto a entrar na faculdade mas frustrado com os pais e consigo mesmo. Até que inicia uma batalha para matar o falso ser no seu interior. Momento crucial na história: o renascer de novo, a transformação de Christopher para Alex Supertramp. Plenamente emancipado da disfuncionalidade dos pais, interpretados por Wiliam Hurt e Marcia Gay Harden, dos excessos dos bens supérfluos, parte então à aventura.» Jorge Pinto in http://www.cinema2000.pt/ficha.php3?id=10248


19 abril 2010

Aviso

Por não se encontrar editado em Portugal, o filme de amanhã "Ikiru" será exibido com legendas em inglês.

18 abril 2010

viver, vivre, to live, leben, жить, ライブ, ikiru

IKIRU, Akira Kurosawa (1952)
Japão . 143 min . IMDb

terça 20 abril às 18h30 (em ponto) | sala 260 | entrada livre

«Muito embora Kurosawa seja principalmente conhecido pelos seus épicos sobre samurais (Os sete samurais e Yojimbo, o Invencível), os seus interesses não se resumem a sangue e entranhas – apesar de nenhum realizador ter explorado como o fez o cineasta japonês todas as potencialidades das imagens de violência no grande ecrã. Kurosawa é, acima de tudo, o maior humanista da sétima arte e Ikiru (viver) é prova cabal disso.

O filme conta-nos a história de Kenji Watanabe (Takashi Shimura, um dos actores predilectos de Kurosawa), um sarariman, ou seja, um assalariado ou burocrata de nível médio, cujo dia-a-dia é monótono e insatisfatório. O feito de que mais se orgulha é nunca ter faltado ao emprego durante os trinta anos em que trabalhou na secção do cidadão da Câmara Municipal. Kenji não se arrepende da mundanidade da sua existência simplesmente porque desconhece qualquer outra opção. Porém, tudo muda ao descobrir que tem um cancro e já não tem muito tempo de vida. Nos meses que lhe restam, Watanabe reconsidera as suas prioridades e realizações, e decide que nunca é tarde de mais para mudar o mundo. Todas as suas energias são canalizadas para a construção de um parque público – um pequeno gesto que, para Kenji e Kurosawa, carrega, contudo, grande significado.

Ikiru celebra a existência, apesar de o seu tema girar em redor da morte e do desgosto. Kurosawa, graças ao seu talento, mostra-nos como estes sentimentos não se contradizem, antes se completam, enquanto elementos do ciclo da vida. Na aldeia global e cínica dos nossos dias, a crença na importância das pequenas coisas, tal como é defendida pelo cineasta, não poderia ser mais tocante.»

in
"1001 filmes para ver antes de morrer".